Como a interoperabilidade de informações pode transformar a saúde.        

Como detalhado neste post, a Arquitetura Orientada a Serviços (do inglês, Service Oriented Architecture – SOA) é um conceito de arquitetura corporativa que promove a integração entre o negócio e a TI por meio de conjunto de interfaces de serviços. Ela viabiliza a integração e a interoperabilidade de sistemas, disponibiliza maior flexibilidade para mudanças e o suporte de serviços independentes de plataforma e protocolos.

Na área da saúde, a promoção da interoperabilidade entre diferentes sistemas de informação depende da interação harmonizada e coordenada entre processos de gestão, conhecimento clínico e arquitetura tecnológica. Existem várias abordagens para construir sistemas que atendam aos requisitos da interoperabilidade. Uma delas é SOA.

Nas corporações é muito comum os processos serem tratados separadamente por departamentos. Sendo assim, cada área visualiza apenas as suas tarefas, sem ter informação de outras atividades que fazem parte de um processo que pode começar em uma área e terminar em outra – assim funcionam também os hospitais e clinicas que cuidam da saúde do indivíduo. Existem inúmeras aplicações dentro dos departamentos que precisam ser integradas e simplificar os processos de negócio. Mas seria possível esta arquitetura impactar na qualidade de vida do paciente? Como a interoperabilidade de sistemas de informação de saúde e o uso de padrões pode ter impacto na saúde? Qual é o cenário atual da interoperabilidade na saúde? Estas questões serão abordadas a seguir.

Vamos imaginar um turista de Brasília, que durante suas férias em São Paulo, sofre um acidente durante um passeio. O paciente é levado a um hospital da região e a primeira providência tomada pela equipe médica seria seguir o protocolo: realizar uma série de exames antes que qualquer procedimento seja iniciado. Como neste caso fictício nada de mais grave aconteceu – apenas uma torção – após horas no hospital, o indivíduo pode voltar tranquilamente ao seu hotel. Na vida real, a depender do caso, a agilidade no atendimento pode ser determinante para garantir a integridade e a vida do paciente. Nessas horas, um sistema integrado com o histórico de pacientes que elimine, por exemplo, a redundância de alguns exames se torna um aliado das instituições de saúde na “luta contra o relógio” e rapidez de atendimento.

Isto é apenas um exemplo para como o conceito de interoperabilidade tem sido pauta importante no mercado da saúde, já que garante a capacidade de diversos sistemas e instituições de trabalharem em conjunto na troca de informações de maneira eficiente e segura, apesar de suas particularidades. Ou seja, são universos diferentes que possuem a mesma forma de se comunicar. Sendo assim, a interoperabilidade iria dar mais agilidade aos processos e descartar procedimentos desnecessários.

O que é interoperabilidade em saúde?

A tecnologia está em ritmo acelerado de crescimento na área da saúde, o que só deve se intensificar nos próximos anos. Novos sistemas de informação, softwares e ferramentas são criados para atender às demandas do setor e facilitar processos na rotina de trabalho dos profissionais envolvidos. Porém, para que tudo funcione de forma otimizada, trazendo vantagens tanto para a corporação quanto para o indivíduo, é preciso destacar o conceito da interoperabilidade. Ela é um elemento importante tanto para negócios e TI, e consiste na capacidade de um sistema em trabalhar com outros sem a necessidade de intervenção. São diferentes sistemas operacionais trabalhando de forma simultânea a partir da implementação de algumas normas-padrão.

A Arquitetura Orientada a Serviços é uma abordagem que pode oferecer interoperabilidade e ajudar os sistemas a permanecerem escaláveis e flexíveis enquanto crescem, além de melhorar o alinhamento entre TI e negócio. Várias tecnologias importantes e padrões têm sido definidos para suportar uma infraestrutura SOA – uma possibilidade é o uso de Web Services, que são baseados em um conjunto de padrões amplamente aceitos e utilizados que cobrem a interoperabilidade.

Resumidamente, para uma implantação adequada da plataforma de interoperabilidade de informações em saúde, deve-se considerar, preliminarmente, a adoção de quatro diretrizes:

  1. Abordagem por arquitetura de informação, centrada no indivíduo, sustentado pela implantação da plataforma computacional de RES – Registro Eletrônico de Saúde;
  2. Reconhecimento da relevância do consentimento de uso da informação em saúde pelo indivíduo;
  3. Reconhecimento da utilização dos padrões de interoperabilidade estabelecidos na Portaria GM/MS nº 2.073/2011;
  4. Uso de soluções de TIC como fator impulsionador da melhoria da atenção em saúde aos indivíduos.

A plataforma de interoperabilidade de informações em saúde parte do princípio de estabelecimento do RES – Registro Eletrônico de Saúde, primeira diretriz, que consiste em um ou mais repositórios que contêm informações relevantes sobre a saúde e bem-estar do paciente. Repositórios podem ser integrados de modo físico ou virtual. O acesso à recuperação do RES, ou seja, à informação clínica de um indivíduo, é feito de forma segura e disponível para múltiplos usuários autorizados por ele (segunda diretriz – consentimento). A informação de saúde está representada de acordo com modelos lógicos padronizados ou consensuais, terceira diretriz. O principal objetivo do RES é oferecer apoio a cuidados de saúde de qualidade, eficazes, seguros e integrados, ao longo de toda a vida do indivíduo pelo uso extensivo da tecnologia da informação, quarta diretriz.

Para atingir a sonhada interoperabilidade em saúde, também é necessário o uso de padrões. Podemos definir padrões de interoperabilidade como o conjunto mínimo de premissas, políticas e especificações técnicas que normatizam e regulamentam o intercâmbio de informações entre os sistemas de saúde, estabelecendo condições de interação com os demais poderes e esferas do governo e com a sociedade em geral. Para conseguir a troca de informações da maneira mais natural possível, é imprescindível a adoção de padrões sobre os quais os diferentes sistemas de saúde possam coincidir. Por este motivo, surgem várias organizações que pretendem unificar critérios em favor da interoperabilidade, tais como HL7 International, HIMSS e NEMA.

Vantagens da interoperabilidade em saúde

No setor de saúde, a interoperabilidade surge para permitir a troca de informação entre as diferentes ferramentas utilizadas nos diversos níveis de atenção no cuidado ao paciente.

Por muito tempo os sistemas de saúde têm falado diversos idiomas, o que dificulta a comunicação e a interação entre eles: existe o risco de serem adotados vários padrões de mensagens diferentes, o que inviabiliza a interoperabilidade. Por este motivo, é muito importante que haja um consenso sobre os padrões a serem utilizados. Neste contexto, destaca-se a Portaria GM/MS nº 2.073/2011, a qual regulamenta o uso de padrões de interoperabilidade e informação em saúde para sistemas de informação em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde, nos níveis Municipal, Distrital, Estadual e Federal, e para os sistemas privados e do setor de saúde suplementar.

Mais recentemente, a questão da interoperabilidade das informações vem sendo objeto de intenso debate, não só entre os diversos sistemas de informação de base nacional, mas também entre os diversos serviços de saúde, considerando, inclusive, que alguns estados e municípios já estão implantando sistemas próprios de Registro Eletrônico em Saúde.

A interoperabilidade permite a comunicação e integração entre:

  • sistema de gestão de consultórios, clínicas e hospitais;
  • Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP);
  • sistema de informação de radiologia;
  • sistema de comunicação e arquivamento de imagens; entre outros.

Visão integral de saúde

A interoperabilidade traz uma visão integral da saúde, já que possibilita reunir, compartilhar e utilizar as diferentes informações de um mesmo paciente. Essa perspectiva mais ampla permite que a assistência à saúde seja feita com mais segurança e eficiência.

Agilidade nos processos

Com sistemas de informação que não se comunicam, o profissional de saúde perde muito tempo da sua rotina com tarefas desnecessárias, como trocas de um programa para outro até conseguir acesso a todas as informações de um mesmo paciente.

Com a interoperabilidade, todo o conteúdo é acessado de uma só vez. Assim, o profissional consegue direcionar o seu tempo para prestar um atendimento ainda melhor ao cliente e eleva a qualidade da experiência que ele terá dentro da instituição de saúde como um todo.

Comunicação entre os profissionais

A implementação da interoperabilidade permite a padronização do registro das informações de saúde dentro de uma mesma plataforma. Isso torna a comunicação entre os diferentes profissionais mais ágil e clara, o que também facilita a tomada de decisões.

Engajamento do paciente

Outra vantagem é que ela promove maior autonomia e engajamento do paciente e seus familiares, já que eles passam a ter acesso facilitado às informações de saúde. Isso traz maior comprometimento e envolvimento do paciente em questões que envolvem o autocuidado, por exemplo.

Redução de custos

Reunir as informações sobre os facilita a análise de variáveis, como tempo de internação e leitos ocupados, que são de extrema relevância e devem ser controlados pelo setor financeiro da unidade de saúde com o objetivo de reduzir custos. Ademais, a maior organização proporcionada por sistemas interoperáveis evita a duplicação de exames e , tarefas dispendiosas que costumam ocorrer com certa frequência nos ambientes clínicos.

Porque a interoperabilidade não é regra ainda?

Existem diversos fatores que agem contra o desenvolvimento de uma interoperabilidade ampla em súde. Em primeiro lugar, há o problema de como representar a informação para sua manipulação computacional. A interoperabilidade semântica implica na padronização de vocabulários (realizado através de padrões como CID-10, LOINC, UMLS, SNOMED-CT entre outros), padronização de estruturas para representação dos dados (como HL7, CDA, openEHR, etc.) e a padronização de mensagens entre sistemas (como DICOM, XDS, IHE e HL7). O desenvolvimento destes padrões é lento, e sua adoção mais lenta ainda.

Diversas instituições do exterior já desenvolveram a consciência da necessidade desse tipo de tecnologia na área da saúde para elevar a qualidade do atendimento aos pacientes, ajudar a reduzir custos e melhorar a gestão do negócio. Muitas delas, inclusive, já inseriram o modelo em suas rotinas de trabalho e estão usufruindo de todas as vantagens da interoperabilidade. Nas empresas brasileiras, todavia, ainda é preciso trabalhar um pouco mais sobre a importância da comunicação entre os sistemas. Apenas uma pequena parcela do mercado local já aderiu ao modelo, o que deve ser incentivado com maior intensidade.

Essa é a melhor forma de fazer com que esses estabelecimentos ofereçam um atendimento diferenciado ao paciente, o que reduz custos, aumentam os lucros e o sucesso do negócio, além de proporcionar uma assistência à saúde de qualidade e com segurança.

Se o objetivo do gestor de hospital, clínica ou centro de diagnóstico por imagem é oferecer um tratamento especial para seus pacientes e otimizar processos e rotinas de trabalho no ambiente clínico, investir em tecnologias como a interoperabilidade deve estar na lista de ações de melhorias. Nesse contexto, se destacar e crescer no mercado é apenas uma consequência para o negócio. A interoperabilidade é a representação da inovação e do progresso na área de saúde, e a percepção dos usuários quanto aos seus benefícios, um dos pilares para se chegar à excelência no uso dessa capacidade para entregar melhores serviços ao paciente, gerando menos custos às instituições.

 

 

 

 

 

Bibliografia

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