Benefícios da interoperabilidade para a gestão de saúde.

Administrar um hospital com visão empresarial significa conciliar e coordenar as pessoas quanto à utilização adequada dos recursos financeiros, materiais e informacionais, mediante técnicas administrativas eficazes. No contexto de gerenciamento, a realidade de uma organização hospitalar é uma estrutura bastante complexa em razão da sua composição organizacional multidisciplinar, formada por profissionais de diversas áreas da natureza dos serviços prestados e do alto grau de investimento financeiro necessário para a sua manutenção e evolução. Portanto, são necessárias ações de gestão organizacional que favoreçam e auxiliem na construção de um modelo de gestão moderno e eficaz. Na atualidade, caracterizada por transformações resultadas de um processo contínuo de inovações proporcionadas pelas tecnologias da informação e comunicação, toda e qualquer organização é induzida a repensar seu modelo de gestão ao considerar a informação como um recurso de capital.

Na prática, um hospital que hoje é de pequeno porte e que faz uma gestão completa e crítica de dados com um sistema de gestão hospitalar completo, pode identificar oportunidades para escalar rapidamente no mercado. Isso vale também para hospitais de grande porte. Porém, instituições que não possuem as ferramentas adequadas de análise e gestão de processos de todos os setores podem deixar passar falhas, que têm um impacto direto sobre o orçamento e a qualidade dos serviços.

Assim, é fundamental buscar um sistema de gestão hospitalar completo que atenda às demandas da organização de ponta a ponta. A concentração de dados em um único ambiente digital amplia as possibilidades de análise e a quantidade de dados para gestão, identificando problemas que são interligados, como os erros no cadastro dos pacientes que podem gerar glosas, que estão entre os principais fatores que afetam o crescimento de uma instituição de saúde.

No Brasil, porém, o cenário da transformação digital na saúde ainda é bastante desigual. Enquanto alguns hospitais trabalham com ferramentas para gestão e análise de dados, muitas instituições ainda utilizam prontuários físicos e documentos impressos para realização de atividades essenciais, como agendamento e controle de estoque. Esse desequilíbrio, que não está atrelado ao tamanho da instituição, aponta para a necessidade urgente do investimento em sistemas que garantam a sobrevivência e o crescimento do negócio, por meio da identificação de falhas, redução de custos e outros tantos aspectos.

O Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), desenvolvido pelo Ministério da Saúde, só se tornou obrigatório nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) no início de 2017. Trata-se do primeiro passo para que sistemas de gestão da saúde pública façam parte da realidade brasileira. Mesmo assim, mais de 27 mil unidades, ou 64% do total, ainda não informatizaram seus serviços de saúde.

O PEP – Prontuário Eletrônico do Paciente é uma tecnologia utilizada em instituições de saúde, no registro, armazenamento e controle digital das informações dos pacientes. Com a ferramenta é possível reduzir erros, otimizar recursos, ampliar a segurança e aperfeiçoar o atendimento nas clínicas e demais organizações médicas. Seja para uma equipe multidisciplinar, que demanda de uma grande variedade de informações do paciente, ou para atender às recomendações do prontuário médico de uma modalidade específica como a oncologia, é fundamental que o PEP viabilize e facilite a coleta customizada dos dados. Isso é proporcionado tanto pela padronização de preenchimento das informações, quanto pela sugestão de protocolos que auxiliam os profissionais no dia a dia. Se há risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC), por exemplo, o sistema poderá sugerir uma conduta padrão a ser seguida: quais os exames deverão ser solicitados, medicações que poderão ser administradas, etc. Vale lembrar que esse recurso é um auxílio para o profissional, e ele continuará sendo o responsável pela tomada de decisões.

Podemos destacar outros recursos importantes do PEP para os profissionais:

  • Integração de todos os dados do paciente, desde a recepção, realização de exames e o atendimento final, formando um histórico completo;
  • Subdivisão em abas, que facilitam a visualização e organização dos dados;
  • Disponibilização de modelos de laudos, atestados e receitas;
  • Destaque de informações específicas do paciente, como alergias e doenças;
  •  Acesso integrado das informações por todos os profissionais envolvidos no tratamento do paciente, etc.

Para que os dados gerados por esses softwares façam diferença na qualidade do atendimento ao paciente, não basta informatizar as unidades – deve haver também interoperabilidade entre sistemas. Renato Sabbatini, especialista no tema e vice-presidente do Instituto HL7 Brasil, explica o conceito: “como não existe um prontuário eletrônico único no Brasil, a solução é fazer a integração por meio da interoperabilidade, que é a compatibilidade determinada por padrões aceitos em todos os locais onde o cidadão é atendido. Dessa forma, as informações sobre um determinado indivíduo podem ser transferidas de um lugar para outro ou acessadas de forma independente.”

Renato destaca que a interoperabilidade amplia a segurança do cidadão ao permitir, por exemplo, que informações como a existência de alergia a medicamentos sejam acessadas em qualquer instituição onde o indivíduo for atendido, mesmo que ele esteja impossibilitado de informar esses dados. “O conceito também reduz a repetição de exames de forma desnecessária, diminuindo os riscos inerentes a esses procedimentos, já que todos os resultados ficam disponíveis no sistema, independentemente de onde eles forem realizados. Menos exames também representam menos custos para a Saúde Pública”, comenta o especialista.

A interoperabilidade, portanto, vai além de garantir a segurança do cidadão. Com os dados gerados por esses sistemas compartilhados, a administração dos recursos é racionalizada. Além disso, essas informações permitem criar e implantar políticas públicas visando a melhoria do atendimento, redução de filas e monitoramento de grupos de risco.

Como vimos neste post, a interoperabilidade no setor de saúde é a capacidade que os diversos sistemas da informação e aplicativos de software têm de se comunicar, trocar dados e utilizar as informações trocadas. Contar com ela significa reduzir custos de operação de aplicações, agilizar a comunicação e tornar as empresas mais eficientes. Dentro do conceito da saúde, por permitir o acesso às informações médicas registradas nos diversos sistemas de informação, a interoperabilidade representa maior autonomia e engajamento do paciente e de seus familiares em seu tratamento.

Suponha que um indivíduo sofra um acidente de trânsito e necessite de encaminhamento urgente para um hospital. Na correria do momento, percebe-se que o sistema da instituição não é capaz de – justo por não ser interoperável – buscar o histórico de exames já realizados pelo sujeito de forma rápida. E é aí que, ao repetir exames provavelmente já feitos pelo paciente, o hospital não só tem mais custos, mas perde um tempo que pode ser decisivo, dependendo da situação.

Em outras palavras, a situação acima destaca como a falta de interoperabilidade dos sistemas institucionais pesa diretamente na eficiência do atendimento. Portanto, permitir que os dados de cada indivíduo sejam compartilhados pode significar não só agilidade na hora de atender alguém, mas a redução de custos em um momento de crise. Informações na palma da mão e dispositivos que conversam entre si são a chave para um futuro com menos erros e mais cuidado com o paciente. Isso deixa o paciente e sua família mais tranquilos e confiantes, afinal, estão “por dentro” do que de fato está acontecendo e de como está seu quadro. Estes não receberão apenas as informações que o médico julgaria necessário passar.

Estas informações podem incluir consultas e procedimentos realizados, sintomas, efeitos colaterais, medicação tomada, pressão arterial, etc. Além disso, a tecnologia permite facilitar a relação de pacientes com os profissionais de saúde, como médicos e enfermeiros, para esclarecer eventuais dúvidas, receber orientações e até mesmo solicitar agendamentos.

Ao redor do mundo, a adoção de prontuários eletrônicos do paciente (PEP) e de padrões de interoperabilidade acontece de maneira diferente. Enquanto o Brasil ainda caminha a passos lentos, Estados Unidos e Reino Unido seguem pioneiros no intercâmbio de dados entre instituições.

“Na saúde privada, onde há uma ampla utilização de sistemas de prontuário eletrônico, é praticamente nula a troca de informações clínicas digitalizadas de um paciente entre diferentes instituições ou unidades de saúde, às vezes pertencentes ao mesmo grupo econômico”, afirma Joel Formiga, assessor do gabinete da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Ainda que o entorno desse atendimento seja fortemente digitalizado – exames clínicos, de imagem, agendamento de eventos médicos, dispensação de medicamentos, sumários de alta, registro de visitas de agentes comunitários de saúde, planilhas de acompanhamento de pacientes crônicos, a troca de informações ainda não acontece.

Na rede pública o tema é ainda distante: Para se ter uma ideia da disparidade, em São Paulo, em quase 90% das unidades do sistema de saúde pública municipal o atendimento ainda é em papel.

O pré-requisito para que ela seja realidade é uma padronização de dados nas informações sobre a situação de saúde dos pacientes que são cadastradas nos prontuários eletrônicos e no sistema da instituição, já que isso possibilita o compartilhamento das mesmas entre os médicos e enfermeiros, que poderão tomar decisões embasadas e mais efetivas.

Como o contexto de terminologias é variado, para que os diferentes e diversos sistemas públicos e privados possam intercambiar informações, é preciso seguir o padrão de interoperabilidade, que seria o uso de um conjunto de padrões e terminologias adequados a serem adotados pelos governos, desenvolvedores de sistemas e fabricantes de equipamentos e dispositivos médicos. Desde 2011, a Portaria GM/MS nº  2073/2011 do Ministério da Saúde (MS) regulamenta o uso de padrões de interoperabilidade e informação em saúde para sistemas de informação em saúde no âmbito do SUS, nos níveis Municipal, Distrital, Estadual e Federal, e para os sistemas privados e do setor de saúde suplementar. Ali, entre outras determinações, ficou estabelecido que, para a definição do Registro Eletrônico em Saúde (RES) será utilizado o modelo de referência OpenEHR e, para estabelecer a interoperabilidade entre sistemas, com vistas à integração dos resultados e solicitações de exames, será utilizado o padrão HL7 – Health Level 7.Para codificação de termos clínicos e mapeamento das terminologias nacionais e internacionais em uso no país, visando suportar a interoperabilidade semântica entre os sistemas, será utilizada o SNOMED-CT, disponível em www.snomed.org.

Outro desafio e condição importante para a adoção da interoperabilidade nas instituições de saúde é garantir a segurança e confidencialidade dos dados do paciente. Ao serem expostos os dados do paciente para a troca de informações entre os médicos sua segurança se torna mais vulnerável. Em caso de violação, a instituição pode sofrer uma série de processos jurídicos.

Sabemos que as questões tecnológicas representam apenas parte da solução das questões de uma instituição. Por isso, torna-se necessário o esforço conjunto de profissionais de saúde, provedores, instituições, usuários e gestores. Só assim será possível estabelecer um padrão que alcance a interoperabilidade de dados de saúde.

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

http://www.mv.com.br/pt/blog/sistema-de-gestao-hospitalar–o-que-nao-pode-faltar

http://enancib.ibict.br/index.php/enancib/xienancib/paper/viewFile/3460/2585

https://www.pixeon.com/blog/sistema-de-gestao-hospitalar/

https://blog.vectracs.com.br/gestao-hospitalar-4-beneficios-da-ti-para-os-seus-pacientes/

https://www.wareline.com.br/wareline/noticias/interoperabilidade-um-caminho-para-gestao-em-saude/